O quarto estava arrumado. O inspector olhou a cómoda de madeira de mógno com tampo em mármote branco. Tinha dois conjuntos de pequenas gavetas simétricas, ao fundo, a enquadrar a moldura do espelho, E naperons. Muitos naperons sob escríneos, jarras e velas de todas as cores e tamanhos. Entre as duas janelas altas havia um nicho com uma Nossa Senhora de Fátima com cerca de 1,2m de altura dentro de uma campanola de vidro rodeada de flores.
Por momentos veio-lhe à memória a discussão com a mulher. Sempre sobre o Moita Flores! Esse incontornável icon, ex-inspector da judiciária, criminologista, escritor, comentador de televisão e Presidente de Câmara. A mulher tem uma mania pelo sujeito a ponto de já lhe ter pedido para deixar crescer bigode e uma barba de três dias. Por seu lado ele, tem flashbacks cada vez que vê ou ouve falar em “flores”.
A cama estava desfeita. Os lençóis soltos mostravam parte do colchão de palha deformado, assente numa malha de aço presa a uma armação de madeira. O corpo do Sr. Meireles estava em cima da cama, oblíquo, frio e quase totalmente rígido. O pescoço estava apertado por uma corda mais grossa do que a de um estendal. A mulher, gorda e disforme, estava caida ao lado da cama, semi-nua com a cara imersa no seu próprio vomitado. Distinguiam-se bem os folhinhos das tripas ainda por digerir. “Foda-se.” disse o guarda Serôdio, num tom que fazia lembrar o cinema português de autor.
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