8.15h da manhã. O sino tocou a rebate após o noticiário da SIC, onde uma nota de rodapé dizia: “dois sexagenários vítimas de crime odiondo, esta madrugada, em Alhos Vedros”. Na rua a população acotovela-se com os primeiros repórteres da comunicação social. Alguns ensaiavam putativas entrevistas, como o Osvaldo, que usou uma sapatilha para recolher o testemunho ansioso da sua mãe, que foi perentória: “…o “Pélé enforcou o senhor Meireles com as tripas da própria mulher!”
Nunes da Ponte entrou discretamente pelo portão das traseiras e subiu a escada de acesso à casa, Deteve-se antes de entrar no quarto, observando a porta alta de madeira maciça, sacou uma luva de latex do bolso e sem a enfiar, usou-a para rodar o puxador redondo de madeira. Certificou-se que a chave estava do lado de dentro e de que não havia sinais de a porta ter sido forçada. O quarto estava escuro. Preferiu acender o candeeiro de tecto a partir do interuptor castanho de baquelite, ao lado da porta. Olhou para o relógio. Eram 9 horas.
O guarda Serôdio caminhou lado a lado com o inspector. Em voz baixa confidenciou-lhe que já tinham detido um suspeito e que o estavam a interrogar no Posto da GNR. O sub-Delegado de Saúde, Dr. Pinto, seguiu ambos mas por precaução imobilizou-se à porta do quarto com os óculos embaciados com a diferença de temperatura. Nunes da Ponte viu os Meireles pela primeira vez.
(continua)
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