“s-è-m-r-e-h-d’- e-r-r-e-t”…
O Inspector Nunes da Ponte soletrou lentamente a marca do aftershave reflectida no espelho enquanto escanhoava a barba, devagar. O seu pensamento vagueava entre os motivos da última discussão com a mulher, antes de adormecer. e as razões que terão levado o Departamento de Investigação Criminal de o acordar ás cinco da manhã de um feriado de Santo António?
A Dona Isaura Meireles sofria de arteroses múltiplas, nas mãos, nos pés, nos joelhos e na anca. Mas também de arteriosclerose, diabetes, aerofagia, ataques de pânico e obesidade mórbida. Nada que a impedisse de comer umas Tripas à moda do Porto regadas com um vinho maduro do Dão, em clandestinidade, no quarto de banho, longe do olhar do seu marido, Fernando Meireles.
O “Pélé” já tinha ido dentro por pequenos furtos e posse de substâncias ilícitas, mas nunca ninguém o levou a sério e até, um dia, um Juiz acabou por gabar-lhe na sentença os dotes futebolísticos. Contudo, “Pélé” era uma referência mítica da criminalidade violenta em Alhos Vedros.
O Sr. Fernando Meireles, surdo bi-lateral profundo em consequência do disparo acidental de um morteiro na véspera da partida para a guerra colonial, acabou por se estabelecer como comerciante do ramo da alimentação e bebidas abrindo um Tasco junto à estação do comboio, por baixo da casa arrendada. Dona Isaura seria a sua primeira empregada para todo o serviço e, mais tarde, a sua verdadeira mulher.
(continua)
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