Arquivo de Outubro, 2008

15
Out
08

o caso meireles (3ª parte)

O quarto estava arrumado. O inspector olhou a cómoda de madeira de mógno com tampo em mármote branco. Tinha dois conjuntos de pequenas gavetas simétricas, ao fundo, a enquadrar a moldura do espelho, E naperons. Muitos naperons sob escríneos, jarras e velas de todas as cores e tamanhos. Entre as duas janelas altas havia um nicho com uma Nossa Senhora de Fátima com cerca de 1,2m de altura dentro de uma campanola de vidro rodeada de flores.

Por momentos veio-lhe à memória a discussão com a mulher. Sempre sobre o Moita Flores! Esse incontornável icon, ex-inspector da judiciária, criminologista, escritor, comentador de televisão e Presidente de Câmara. A mulher tem uma mania pelo sujeito a ponto de já lhe ter pedido para deixar crescer bigode e uma barba de três dias. Por seu lado ele, tem flashbacks cada vez que vê ou ouve falar em “flores”.

A cama estava desfeita. Os lençóis soltos mostravam parte do colchão de palha deformado, assente numa malha de aço presa a uma armação de madeira. O corpo do Sr. Meireles estava em cima da cama, oblíquo, frio e quase totalmente rígido. O pescoço estava apertado por uma corda  mais grossa do que a de um estendal. A mulher, gorda e disforme, estava caida ao lado da cama, semi-nua com a cara imersa no seu próprio vomitado. Distinguiam-se bem os folhinhos das tripas ainda por digerir. “Foda-se.” disse o guarda Serôdio, num tom que fazia lembrar o cinema português de autor.

09
Out
08

o caso meireles (2ª parte)

8.15h da manhã. O sino tocou a rebate após o noticiário da SIC, onde uma nota de rodapé dizia: “dois sexagenários vítimas de crime odiondo, esta madrugada, em Alhos Vedros”. Na rua a população acotovela-se com os primeiros repórteres da comunicação social. Alguns ensaiavam putativas entrevistas, como o Osvaldo, que usou uma sapatilha para recolher o testemunho ansioso da sua mãe, que foi perentória: “…o “Pélé enforcou o senhor Meireles com as tripas da própria mulher!”

Nunes da Ponte entrou discretamente pelo portão das traseiras e subiu a escada de acesso à casa, Deteve-se antes de entrar no quarto, observando a porta alta de madeira maciça, sacou uma luva de latex do bolso e sem a enfiar, usou-a para rodar o puxador redondo de madeira. Certificou-se que a chave estava do lado de dentro e de que não havia sinais de a porta ter sido forçada. O quarto estava escuro. Preferiu acender o candeeiro de tecto a partir do interuptor castanho de baquelite, ao lado da porta. Olhou para o relógio. Eram 9 horas.

O guarda Serôdio caminhou lado a lado com o inspector. Em voz baixa confidenciou-lhe que já tinham detido um suspeito e que o estavam a interrogar no Posto da GNR. O sub-Delegado de Saúde, Dr. Pinto, seguiu ambos mas por precaução imobilizou-se à porta do quarto com os óculos embaciados com a diferença de temperatura. Nunes da Ponte viu os Meireles pela primeira vez.

(continua)

04
Out
08

O caso Meireles (1ª parte)

“s-è-m-r-e-h-d’- e-r-r-e-t”…

O Inspector Nunes da Ponte soletrou lentamente a marca do aftershave reflectida no espelho enquanto escanhoava a barba, devagar. O seu pensamento vagueava entre os motivos da última discussão com a mulher, antes de adormecer. e as razões que terão levado o Departamento de Investigação Criminal de o acordar ás cinco da manhã de um feriado de Santo António?

A Dona Isaura Meireles sofria de arteroses múltiplas, nas mãos, nos pés, nos joelhos e na anca. Mas também de arteriosclerose, diabetes, aerofagia, ataques de pânico e obesidade mórbida. Nada que a impedisse de comer umas Tripas à moda do Porto regadas com um vinho maduro do Dão, em clandestinidade, no quarto de banho, longe do olhar do seu marido, Fernando Meireles.

O “Pélé” já tinha ido dentro por pequenos furtos e posse de substâncias ilícitas, mas nunca ninguém o levou a sério e até, um dia, um Juiz acabou por gabar-lhe na sentença os dotes futebolísticos. Contudo, “Pélé” era uma referência mítica da criminalidade violenta em Alhos Vedros.

O Sr. Fernando Meireles, surdo bi-lateral profundo em consequência do disparo acidental de um morteiro na véspera da partida para a guerra colonial, acabou por se estabelecer como comerciante do ramo da alimentação e bebidas abrindo um Tasco junto à estação do comboio, por baixo da casa arrendada. Dona Isaura seria a sua primeira empregada para todo o serviço e, mais tarde, a sua verdadeira mulher.

(continua)