Arquivo de Julho 17th, 2008

17
Jul
08

o repórter da radio

Estão 40 graus à sombra em Kandahar.

Antes de virar a ultima esquina ouço uma enorme explosão junto do Hospital de Mirwaiz.

Tudo fica envolto numa densa poeira amarela e fumo. Caminho rápido, zig-zagueando na direcção do núcleo de fumo negro e espesso.

Há mais de 30 anos que sou repórter freelancer. Comecei no Chile, em 1973, e não parei mais. Pura adrenalina. Não tenho computador nem máquina vídeo e/ou fotográfica. Gosto de passar despercebido. Frank Capra dizia “se uma fotografia não é boa é porque não estavas suficientemente próximo”. Tento compensar com o meu gravador de mp3. Faço o relato, como um repórter da rádio, registo o som ambiente, uma frase sussurrada, um ultimo suspiro.

Vejo vultos que caminham como autómatos desnorteados, cobertos de pó ocre e espichando sangue vermelho vivo. Cadáveres a crédito.

Saio do passeio e atravesso a rua, cruzo-me com um cão que dava saltos como um canguru, apoiado nas patas traseiras, porque as da frente tinham sido decepadas. Corre um rio de sangue junto à valeta. Há afegãos mortos. São corpos contorcidos, mutilados, projectados violentamente contra as fachadas.

Uma mulher de burka cambaleia a arrastar uma perna de criança sem corpo. Um homem tem no regaço o que presumo ser a sua mulher e o filho, que tem vestido a camisola do Cristiano Ronaldo, ambos mortos, e aponta uma AK-47, contra ele próprio. Falha a rajada suicida. Fica sem parte do maxilar e, agora, suplica com a língua suspensa pelo pescoço que o matem. Finjo não reparar.

Deparo-me com uma poltrona desfeita no meio da rua com um velho sentado com longas barbas, outrora brancas como as suas vestes. No lugar dos olhos há dois buracos negros, donde escorre imenso sangue. Os olhos, esses estão pousados sobre o peito. E eram azuis.

Chego à cratera aberta pela bomba. O que resta de um forgão capotado arde, no fundo perto de um homem sentado, que, indiferente ao fogo, arranca pedaços da sua própria pele queimada.

Tropeço num jovem, provavelmente um doente a caminho do Hospital. Está completamente trucidado nos ferros maca que o transportava.

A bomba devia vir na ambulância!

Afasto-me para o outro lado da rua na direcção de uma mulher que está à porta de uma loja. “Que se passou?”, perguntei. “Roubaram-me 12 T-shirts do Homem-Aranha!”