14
Jul
08

sala de espera sem televisão

Puseram-me uma pulseira verde, o quer dizer que, segundo o método de Manchester, o meu caso não é urgente, e por isso vou ter de esperar uma a duas horas até ser observado por um médico.

Dr.House entrou de rompante no bloco com os antebraços erguidos. Trocou um olhar de assentimento cúmplice com a sua equipa, apertou o garrote da perna direita do paciente e insuflou-lhe ar. Com a tesoura e desembaraçou-se da ligadura de gase que envolvia o joelho direito. Pegou no bisturi da mão da enfermeira instrumentista e disse: “Vamos cortar!”

O corpo do paciente ergue-se, num ápice, trazendo atrás uma panóplia de tubos e instrumentos. Fica sentado respirando sofregamente, como se estivesse estado afogado. Dr House olhou possesso para sua a equipa, virou costas e saiu.

Não fosse a notícia de que o seu contracto não seria renovado e esta manhã seria igual a tantas outras no bloco para a enfermeira Carol Hathaway. Quando o paciente chegou iniciou os protocolos para o tipo de intervenção. Como de costume esboçou um sorriso enquanto procurava uma veia para espetar a butterfly que canalizaria o soro e onde ia injectar a anestesia geral. “Quanto pesa? Vai ver que não custa nada. Se lhe doer, é sinal que não está na veia, avise-me.”

Porque é que me amarraram com estas fivelas de couro à marquesa? Tenho fome e muita, muita sede. Dói-me horrivelmente o braço e também o ombro. É isso que estou a tentar dizer quando o anestesista, aperta uma máscara que me tapa a boca e o nariz. Inspecciona-me um olho de cada vez. É Dr. Lecter! ”Conte até 10″, ordenou. Eu quero avisá-lo da dor no braço. Este cheiro …  o ar que querem que respire, parece-me clorofórmio! Vou perder os sentidos. Tento suster a respiração. “Podem começar”, ouvi vagamente o Dr. Lecter, dizer. Sinto a perna cada vez mais apertada por algo que vai enchendo como um pneu de bicicleta. Ouço claramente House dizer: “Vamos cortar!”

Junto todas as forças que tenho e as que não tenho para me libertar das fivelas que me prendem, da máscara e de tudo o resto. Fiquei sentado na marquesa, respirando ofegante. O médicos discutem e empurram-me de volta para a posição inicial. Estão todos em cima de mim, perguntam se me drogo, tento dar luta, insulto-os, mas Dr. Lecter faz-me com um garrote no pulso e injecta-me um espesso líquido verde. Já não tenho forças… Olho a enfermeira Hathaway e pela primeira vez reparo que é loura e tem uma pala preta no olho direito…

Podem correr os créditos finais!

O médico andaluz mandou-me entrar. “Nome catalão? De que se queixa?”, disse. Mostrei-lhe o joelho. “Moderdura de insecto rastejante com infecção. Anti-histamínico oral e cortisona local e endovenosa” disse, ainda, preenchendo dados no terminal. “E tu és catalão?”, perguntei. “No, de Granada”.

 Ah! O Alhambra!. Vai ter que esperar.


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