Gorky não se mexeu. Nem quando a mãe lhe colocou um toalhete branco banhado em água a ferver, nem agora, que ela lhe agarra firme, com o indicador e polegar, um naco de carne, algures entre a orelha esquerda e o pescoço e espreme, vigorosamente, um enorme furúnculo, secundariamente infectado, expelindo o pus para dentro da minha sopa.
“Extraí-mos a bala, meu Coronel!”, disse a velha no auge da sua demência, fazendo de seguida uma festa na testa de Gorky.
“What the fuck, dez anos como infiltrado e nunca vi semelhante nojeira! ” disse, indignado ao meu chefe, Horácio, que me olhou, obliquo, por cima dos óculos escuros do alto da pose de quem está a um mês da reforma.
“Há dez anos que os serviços secretos tentam deitar a mão a Gorky. E há dez anos que pensavam que aquilo que Gorky escondia por baixo do penso era um chip, que lhe permitia, antecipadamente, saber que nós sabíamos sempre onde ele estava. Percebeu?” – sentenciou Horácio.
E se não fosse? Se Gorky, o patrão da máfia de Leste a viver em Brooklyn, tivesse mesmo um furúnculo secundariamente infectado?
Acordo com o dedo grande do pé direito a coçar freneticamente o pé esquerdo. A planta do pé está a sangrar precisamente sitio onde, há anos, numas férias na Europa, fui picado por um peixe-aranha. Sinto um filamento espetado na carne. Ainda me recordo da enfermeira que me tratou, era Ucrâniana, de cabelo louro e olhos vagamente azuis. Puxo o filamento que se une a um corpo pástico. Natacha, cheirava, como só os anjos devem cheirar. What the fuck! É o chip!
Os paramédicos acabaram de entubar Gorky. A mãe e uma grande fotografia de Putin, encaixilhada numa moldura barroca, aguardam por ele na ambulância que dispara silenciosos raios de luz azul contra as fachadas da Brooklyn, adormecida.
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