A realização da minha morte tornou-se uma obsessão. Antes, só pensava suicidar-me a partir dar 17,30h. Agora, que estou de férias, o impulso chega ás 4h da manhã!
Antes pensava deixar escrita uma longa carta, bi-lingue, (gosto da sonoridade dramática de My Dear, de usar pena e tinteiro e lacre para selar o envelope), mas parece-me demasiado burocrático e premeditado.
Talvez deixe, apenas, um expressivo tag escrito com o meu próprio sangue, mas temo que, após o golpe profundo, a dor e a hemorragia, não ter inspiração, nem tempo, e saia uma gatafunhada que ninguém entende.
Porque nisto do suicídio também há que ter bom gosto, eu jamais escolheria cortar os pulsos, morrer queimado, afogado ou esborrachado no chão depois de saltar de um arranha-céus.
Sendo assim, restam-me um poucos finais alternativos, que não poderão ser excluídos dos extras da minha biografia.
A overdose de barbitúricos.
Método, super-espumante, experimentado por um primo meu, infelizmente, sem sucesso já que porque foi, atempadamente, “salvo” por um familiar, hoje arrependido.
O comboio ou o metro (excepto o de superfície)
Método tradicionalmente eficaz e de garantida notoriedade, contudo, no meu caso particular, imagino com algum incómodo, a minha cabeça a separar-se do corpo, ficando colocada de forma a observar, através dos óculos, intactos, o corpo, já sem metade das pernas, a esbracejar e jorrar sangue pelo pescoço, como se de uma garrafa de champanhe se tratasse.
O tiro na cabeça.
Apesar da vulgaridade, este método implica alguma logística: compra de arma e munições de calibre proibido no mercado paralelo e a preços especulativos, ausência embalagens originais, livro de instruções e garantias. A falta de treino no manuseamento de armas de fogo e alguma crença na dureza da minha cabeça, tornam este método altamente duvidoso.
O enforcamento
Método que o cinema americano divulgou e que os Tribunais Iranianos ainda praticam, com resultados aleatórios. Usado também no mundo da música, com sucesso, caso de Ian Curtis dos Joy Division, tende a ser descoberto por uma só pessoa, geralmente a mulher da limpeza ou um vizinho mal encarado, o que por si só o torna ridículo.
O acidente automóvel voluntário
O suicídio na sequência de um grande e solitário acidente automóvel, como o James Dean, já não é notícia e é quase impossível, nos dias de hoje, mesmo no Alentejo, devido à saturação de carros, aos limites de velocidade e à presença constante da GNR. Depois. ainda há o problema de que quanto mais potente o carro é. mais dispositivos activos e passivos de segurança e protecção do condutor possui, o que só agrava o risco de o condutor não morrer.
O James Dean em ponto morto
Uma variante, que pode ser executada num parque de estacionamento de um hipermercado, na baixa em hora de ponta ou na garagem de um condomínio: morrer sentado ao volante de um carro desportivo, a derreter o conta rotações, em ponto morto. Um pormenor: uma mangueira flexível tem que ligar o tubo de escape com o interior do carro, pela mala ou vidro traseiro, de forma a que todo o monóxido de carbono possa ser respirado.
Esta solução atinge o seu ponto dramático se, quando já não sentir o corpo, ainda conseguir acompanhar o refrão da última faixa do CD “Murder Ballads” de Nick Cave, que previamente colocou no leitor de CD´s –
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