O tiro foi certeiro. Na nuca, como previra. O corpo caiu desamparado de cabeça contra o chão, ao lado da cama, sublime, em ébano. Não quis ver, pela última vez, o rosto da esposa, que sofria, demais, de uma doença incurável. Voltou a confirmar se o envelope branco, que encerrava uma carta endereçada à Polícia local, estava bem visível em cima da cómoda, junto à entrada do quarto de casal. Voltou, então, a arma para si, elevando-a com a mão a trémula e encaixou o cano contra o céu da boca. O seu último olhar foi para uma fotografia da cadela Dachshund, de quem dizia ser, com amargura, “a nossa filha”. Uma lágrima soltava-se-lhe, lentamente, do olho esquerdo quando puxou o gatilho. Foi, assim, a morte do homem que comprava tudo em duplicado.

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