01
Jun
08

a autópsia

“Se isto é uma autópsia, não devia estar aqui um corpo, doutor?”, perguntei ao homenzinho de olhos esbugalhados que agora tirava uma esferográfica de entre um monte colorido das que exibia no bolso esquerdo, do peito, da bata desabotoada, preparando-se para escrever nos papeis espalhados na bancada de aço.

“Assine aqui”, disse, quase sussurrando, apontando para uma pequena cruz, que acabara de fazer. A mão tremia-lhe e o suor escorria-lhe pela testa colando os cabelos grisalhos e realçando a barba por desfazer sobre a pele pálida. Desviei, momentaneamente, o olhar na direcção do óculo de vidro da porta que dava para o corredor. As duas silhuetas, paradas, por detrás da porta, não me eram estranhas. Não posso perder mais tempo. Reparo na fotografia agrafada ao cabeçalho dos papéis. É o Halibut! Isto é uma armadilha. “Quanto lhe pagaram, doutor?” perguntei baixo, tentando conter a raiva. “Eu dobro”, tirei 300 dólares do bolso e saí rápido pelas traseiras.

Entro numa viela estreita e nauseabunda e desloco-me patinhando rápido, entre sacos plásticos pretos e restos  de madeira putrefacta de caixões, para longe da morgue. Uma mão agarra-me firme a gabardine pela gola e atira-me para dentro de uma loja,. Bato com a cabeça no chão. Desmaio.

 

 



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