Arquivo de Junho, 2008

23
Jun
08

as minhas aventuras como júri

Pela segunda vez fiz parte do Júri do Encontro de Estátuas Vivas, que já vai na sua XII edição, anual, pelo que, suponho, que entretanto, algumas tenham morrido ou atingido o Nirvana. Basicamente, existem 4 tipos de “estátuas”, a saber: os “The Flintstones” ou “Ramblas”, que procuram recriar na perfeição o modelo clássico, de pedra ou de metal, com mais ou menos patine, pedestral e recorrem a técnicas de imobilismo capazes, mesmo, de atrair pombos; o Grupo de Teatro, que embora se inspirem em modelos clássicos, não resistem aos figurinos e slogans de intervenção, sofrem de varizes e, por isso mesmo, de vez em quando soltam grandes gestos dramáticos de espantalho; os ”Performers”, ou Imobilismo Crítico, que optam por uma alternativa entre um gajo parado tás a ver, um ou dois minutos, e a dança, uma coceira que reage ao tilintar de Euros; os NABOA, que procuram uma posição cómoda, de preferência deitada, de barriga para baixo, tomam um Xanax e deixam o tempo passar.

Classificar e premiar esta gente é fácil.

Difícil, foi constactar que, na verdade, quem merecia ser premiado, não era nenhuma das “estátuas”, mas o trio que estava no público a assistir à entrega dos prémios. Não sei quem são, mas juro que esta imagem me vai perseguir, até morrer. Há lá mais expressão plástica, imobilismo e originalidade?

14
Jun
08

uma história triste

O tiro foi certeiro. Na nuca, como previra. O corpo caiu desamparado de cabeça contra o chão, ao lado da cama, sublime, em ébano. Não quis ver, pela última vez, o rosto da esposa, que sofria, demais, de uma doença incurável. Voltou a confirmar se o envelope branco, que encerrava uma carta endereçada à Polícia local, estava bem visível em cima da cómoda, junto à entrada do quarto de casal. Voltou, então, a arma para si, elevando-a com a mão a trémula e encaixou o cano contra o céu da boca. O seu último olhar foi para uma fotografia da cadela Dachshund, de quem dizia ser, com amargura, “a nossa filha”. Uma lágrima soltava-se-lhe, lentamente, do olho esquerdo quando puxou o gatilho. Foi, assim, a morte do homem que comprava tudo em duplicado.

 

 

 


11
Jun
08

cãozinho verde de cauda comprida e sorriso rasgado

Devo explicar que o recente lapso na publicação de posts se deve a uma razão: eu sou, por formação, um Genérico. É por isso que, depois de ter escapado vivo da morgue de San António, onde, descobri, mais tarde, se traficavam orgãos e membros humanos para realizar efeitos especiais de filmes mexicanos, independentes e de baixo orçamento (cf. Robert Rodriguez), me vi obrigado a interromper a preparação de um PowerPoint sobre como reciclar os cerca de 6.000 satélites artificiais lançados desde 1957 para a atmosfera, aceitando o convite da FUNAI para subir a “grande serpente” e contactar a tribo que José Carlos Meirelles Júnior, fotografou do ar, em 29 de Maio de 2008, no Estado do Acre, junto à fronteira com o Perú. Acontece que, por uma questão de manter o seu protagonismo, esse senhor aconselhou-me um guia local que não foi suficientemente convincente, ao desenhar-me um cãozinho verde, de cauda comprida e sorriso rasgado, tendo eu acordado sem metade da minha perna esquerda, no dia seguinte a um monumental rodízio na selva, ao luar, na margem do Amazonas, na véspera de encontrar a agulha no palheiro, que neste caso é o mesmo que dizer Índios e palhotas.

 

 

02
Jun
08

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band

Não sei se há registros de fezes espaciais cairem nas cabeças da população mundial, mas todo cuidado é pouco, já que há notícias da existência de sucata espacial. Esta é uma explicação que eu já devia ter dado, a outra é que, por lapso, no post anterior surgiu um título alusivo ao 31 anos do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band  (1/06/1967) e uma imagem de um mural psicadélico, onde se destacam os Beatles, que em nada se relaciona com a autópsia ao bom estilo JFK, comentada no artigo. O título foi alterado e a imagem substituída por uma fotografia de um sexagenário com umas boas coxas.

 

Murall em NYC perto do Blue Note 

01
Jun
08

a autópsia

“Se isto é uma autópsia, não devia estar aqui um corpo, doutor?”, perguntei ao homenzinho de olhos esbugalhados que agora tirava uma esferográfica de entre um monte colorido das que exibia no bolso esquerdo, do peito, da bata desabotoada, preparando-se para escrever nos papeis espalhados na bancada de aço.

“Assine aqui”, disse, quase sussurrando, apontando para uma pequena cruz, que acabara de fazer. A mão tremia-lhe e o suor escorria-lhe pela testa colando os cabelos grisalhos e realçando a barba por desfazer sobre a pele pálida. Desviei, momentaneamente, o olhar na direcção do óculo de vidro da porta que dava para o corredor. As duas silhuetas, paradas, por detrás da porta, não me eram estranhas. Não posso perder mais tempo. Reparo na fotografia agrafada ao cabeçalho dos papéis. É o Halibut! Isto é uma armadilha. “Quanto lhe pagaram, doutor?” perguntei baixo, tentando conter a raiva. “Eu dobro”, tirei 300 dólares do bolso e saí rápido pelas traseiras.

Entro numa viela estreita e nauseabunda e desloco-me patinhando rápido, entre sacos plásticos pretos e restos  de madeira putrefacta de caixões, para longe da morgue. Uma mão agarra-me firme a gabardine pela gola e atira-me para dentro de uma loja,. Bato com a cabeça no chão. Desmaio.